Diz uma antiga fábula que cada ser humano carrega consigo dois sacos, um pendurado na frente de seu corpo e outro nas costas. O primeiro contém os defeitos alheios e o segundo contém seus próprios defeitos. É por isso que o ser humano tem olhos para ver os defeitos alheios, mas não consegue enxergar suas próprias mazelas.
Assim, nós temos a tendência de responsabilizar os outros por todo o mal que nos acontece, sem parar para pensar que as causas desses males podem estar em nós mesmos. Olhamos para fora de nós em busca das causas de nossas inquietações e aflições sem cogitar que elas podem estar dentro de nós. Pior ainda, ao olhar para os outros enxergamos neles defeitos que na realidade estão em nós, o que gera conflitos e animosidade. É o mecanismo que os psicólogos chamam de projeção. As religiões funcionam da mesma forma quando falam em Deus e no Diabo. Vemos Deus como alguém infinitamente bom que nos pode dispensar bênçãos em resposta a nossos pedidos e orações. E responsabilizamos o Diabo por todo o mal que desaba sobre nós.
No Brasil, hoje muitas pessoas atribuem ao Diabo males como doenças, desemprego e pobreza, achando que basta rezar para Deus para expulsar o Demônio e se livrar desses males.
No Budismo também se fala no Diabo. As Escrituras budistas contam que na noite de sua iluminação, o Buda Shakyamuni venceu uma grande batalha contra Mara, o demônio da morte, do desejo e da ilusão. Entretanto, o Budismo não vê o Diabo como um personagem que existe fora de nós, mas sim como uma imagem de todos os defeitos e falhas que existem dentro de nós mesmos, como ignorância, inveja, orgulho, cólera, preguiça, egoísmo, indecisão, agitação, teimosia, rabugice, dúvida, etc. Assim, a batalha do Buda contra o diabo Mara foi, na verdade, um combate travado contra suas próprias tendências negativas, ou, em outras palavras, contra seus demônios interiores.
O Budismo nos convida, então a seguirmos o exemplo de seu fundador, buscando dentro de nós mesmos as causas dos males que nos afligem, ao invés de buscá-las em fatores externos ou em diabos imaginários. É por isso que grandes mestres budistas como o Reverendo Prof. Daiei Kaneko definiram o Budismo como sendo o Caminho da Introspecção. Introspecção significa olhar para dentro. O Budismo nos exorta, pois, a voltarmos a atenção para dentro de nós mesmos para superarmos nossos males
Desfazendo Equívocos (“Não Procure o Budismo”)
- Se você quer milagres, não procure o Budismo. O supremo milagre para o Budismo é você lavar seu prato depois de comer.
- Se você quer curar seu corpo físico, não procure o Budismo. O Budismo só cura os males de sua mente: ignorância, cólera e desejos desenfreados.
- Se você quiser arranjar emprego ou melhorar sua situação financeira, não procure o Budismo. Você se decepcionará, pois ele vai lhe falar sobre desapego em relação aos bens materiais. Não confunda, porém, desapego com renúncia.
- Se você quer poderes sobrenaturais, não procure o Budismo. Para o Budismo, o maior poder sobrenatural é o triunfo sobre o egoísmo.
- Se você quer triunfar sobre seus inimigos, não procure o Budismo. Para o Budismo, o único triunfo que conta, é o do homem sobre si mesmo.
- Se você quer a vida eterna em um paraíso de delícias, não procure o Budismo, pois ele matará seu ego aqui e agora.
- Se você quer massagear seu ego com poder, fama, elogios e outras vantagens, não procure o Budismo. A casa de Buda não é a casa da inflação dos egos.
- Se você quer a proteção divina, não procure o Budismo. Ele lhe ensinará que você só pode contar consigo mesmo.
- Se você quer um caminho para Deus, não procure o Budismo. Ele o lançará no vazio.
- Se você quer alguém que perdoe suas falhas, deixando-o livre para errar de novo, não procure o Budismo, pois ele lhe ensinará a implacável Lei da Causa e Efeito e a necessidade de uma autocrítica consciente e profunda.
- Se você quer respostas cômodas e fáceis para suas indagações existenciais, não procure o Budismo. Ele aumentará suas dúvidas.
- Se você quer uma crença cega, não procure o Budismo. Ele o ensinará a pensar com sua própria cabeça.
- Se você é dos que acham que a verdade está nas escrituras, não procure o Budismo. Ele lhe dirá que o papel é muito útil para limpar o lixo acumulado no intelecto.
- Se você quer saber a verdade sobre os discos voadores ou sobre a civilização de Atlântida, não procure o Budismo. Ele só revelará a verdade sobre você mesmo.
- Se você quer se comunicar com espíritos, não procure o Budismo. Ele só pode ensinar você a se comunicar com seu verdadeiro eu.
- Se você quer conhecer suas encarnações passadas, não procure o Budismo. Ele só pode lhe mostrar sua miséria presente.
- Se você quer conhecer o futuro, não procure o Budismo. Ele só vai lhe mandar prestar atenção a seus pés, enquanto você anda.
- Se você quer ouvir palavras bonitas, não procure o Budismo. Ele só tem o silêncio a lhe oferecer.
- Se você quer ser sério e austero, não procure o Budismo. Ele vai ensiná-lo a brincar e a se divertir.
- Se você quer brincar e se divertir, não procure o Budismo. Ele o ensinará a ser sério e austero.
- Se você quer viver, não procure o Budismo, pois ele o ensinará a morrer. Se você quer morrer, não procure o Budismo, pois ele o ensinará a viver.
Por Revª. Ivonete Joko (in memoriam)